Prefácio de Roger Agnelli, presidente da Vale:
Com esta tradução de Globality, os leitores de língua portuguesa ganham a oportunidade de conhecer na íntegra o estudo desenvolvido por uma equipe que se dedica há mais de vinte anos a um assunto que afeta, ainda que de modo diferenciado, todos os povos do mundo – a globalização. Aliás, não seria essa tradução quase simultânea do inglês para o português um efeito interessante da nova realidade do mundo globalizado? Não se trata de um caso fortuito que o livro, lançado em junho em Nova York e em Londres, já esteja, em menos de cinco meses, acessível ao público brasileiro. Do enredo de Globalidade, o Brasil é um dos protagonistas, e com uma admirável e surpreendente atuação no cenário econômico mundial em que transcorre a história contada por Sirkin, Hemerling e Bhattacharya.
Na década de 80 do século XX, com as mudanças das práticas econômicas e redefinições do panorama geopolítico, iniciava-se o poderoso processo a que se chamou de globalização, cujos efeitos se fizeram sentir em todas as nações do continente. Pode-se dizer que, naquele momento, dados o alcance, a intensidade e a natureza da “nova ordem”, começou a ser escrito um novo capítulo da história da humanidade. A internacionalização do capital, a abertura e ampliação de mercados, as questões cambiais, o incremento do fluxo monetário e de mercadorias, o avanço tecnológico, especialmente na difusão da rede de informação, a competitividade, o intercâmbio e interdependências das economias nacionais, a formação de corporações transnacionais, a criação de blocos econômicos e suas implicações, como as zonas de livre comércio, união aduaneira e o mercado comum, os novos hábitos, padrões culturais e de consumo são alguns dos aspectos característicos da nova era.
Contudo, do final dos anos 80 do século passado para a primeira década do século XXI, mudanças muito profundas na lógica econômica mundial e nas estratégias geopolíticas já ocorreram – e numa velocidade às vezes até perturbadora. Há vinte anos, só para darmos uma dimensão da natureza das transformações, quando o processo de globalização se iniciou, as empresas hegemônicas eram multinacionais dos Estados Unidos, Europa e Japão, que deixavam os seus centros de origem e dirigiam-se às terras estrangeiras com o objetivo de produzir, com baixos custos, para low-end markets. Hoje, o cenário é muito diverso, não só porque dominado por novos atores, mas também porque dotado de dispositivos e engrenagens que lhe asseguram uma configuração diferente daquela de duas décadas atrás. E é esse o grande diferencial do livro: a análise de um momento específico, de uma nova era que surge no interior mesmo do processo de globalização, momento ao qual os autores deram o nome de “globalidade”.
“Globalidade” não é, portanto, mais um vocábulo para designar a globalização, não é um sinônimo ou um substitutivo. Segundo os autores, trata-se de “uma realidade global nova e diferente, na qual todos competem com todos, em todos os lugares, por tudo”. É um novo ambiente de negócios, em que limites e fronteiras se diluem, num cenário dinâmico e em constante expansão. Um cenário em que já não há mais centro e periferia, pontos de convergência, lugares privilegiados ou locação única, em que a idéia de “estrangeiro” não tem mais vez, em que posições julgadas dominantes são sempre instáveis e provisórias. Aliás, é muito interessante o modo pelo qual os autores descrevem esse novo momento, a partir do campo referencial do cinema: um roteiro novo, blockbuster, de muitos personagens, em que se condensam suspense, ação, drama; um road movie com locações em todos os cantos do planeta, estrelado por um vasto elenco, cujos papéis não são definidos – afinal, novos personagens podem surgir, inesperadamente, a qualquer momento e de qualquer lugar, imprimindo reviravoltas surpreendentes ao enredo.
A era da globalidade se caracteriza pela ascensão de atores que não passavam de figurantes ou que, no máximo, interpretavam papéis de coadjuvantes. Quando os refletores se lançavam a eles, era porque, na maioria das vezes, no foco da cena estavam suas mazelas, moléstias, vícios e exotismo. No novo cenário econômico mundial, os personagens que eram secundários viraram protagonistas e são chamados pelos autores de Globality de “desafiantes globais”; são os que provocam os “estabelecidos”. A relação do elenco de “desafiantes” é grande: empresas da Argentina, Brasil, Chile, China, Egito, Hungria, Índia, Indonésia, Malásia, México, Polônia, República Tcheca, Rússia, Tailândia e da Turquia formam o conjunto dos novos competidores. Nessa arena, não é a potência do aparato bélico o que garante a vitória, mas a capacidade para organizar ações táticas, para criar estratégias na busca de novos mercados, a capacidade de inovar, de definir metas exeqüíveis, a seriedade e ética na gestão de custos, no desenvolvimento de pessoas, o compromisso inabalável com o desenvolvimento sustentável e com a responsabilidade socioambiental.
As empresas “desafiantes” são vorazes, crescem rapidamente e estão numa disputa acirrada “com todos, de todos os lugares, por tudo”, especialmente por recursos e mercados – e, por recursos, entenda-se os naturais e os humanos. Elas procedem de países que, se em outros tempos seriam chamados de subdesenvolvidos, recebem hoje a qualificação de emergentes ou, como preferem os autores, rapidly developing economies (RDEs), países que, em geral, possuem duas vantagens sobre os desenvolvidos: além de ricos em recursos, são grandes mercados. E esses são dois importantes requisitos na era da globalidade, num panorama de disputas em que todos querem se apoderar das mesmas coisas, especialmente das mais valiosas: matéria-prima, capital, conhecimento, competências, líderes, gestores, trabalhadores capacitados, colaboradores, fornecedores e, obviamente, de consumidores.
Se o momento é de grandes disputas, é também de grandes desafios, e é esse o eixo do livro de Sirkin, Hemerling e Bhattacharya. A grande questão é saber como ser bem-sucedido na era da globalidade, num mundo de grande competição, num roteiro encenado por atores que estão à procura de oportunidades para fazer brilhar seu talento, sua capacidade de trabalho e empreendedorismo. Segundo os autores, “estabelecidos” e “desafiantes” têm muito a aprender uns com os outros.
A nós, brasileiros, Globality tem muito a dizer. O Brasil é um dos protagonistas – e bem respeitado – dessa história, na condição de RDE. Além dos relatos e interessantes análises a respeito de muitas de nossas práticas exemplares na era da globalidade, o livro ostenta uma relação de 13 empresas desafiantes brasileiras – Braskem, Coteminas, Embraer, Gerdau, JBS-Friboi, Marcopolo, Natura, Perdigão, Petrobras, Sadia, Vale, Votorantim e WEG. Estamos atrás apenas da China, com 41 empresas, e da Índia, com 20. Ao México, coube a quarta colocação, com 7.
A globalidade, tal como definida e caracterizada por Sirkin, Hemerling e Bhattacharya, representa uma excelente oportunidade para as empresas brasileiras demonstrarem sua capacidade de responder a desafios; para nosso povo, significa mais um momento histórico favorável à expressão de sua grande criatividade.
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